POR DAN YAMASHITA · NÍVEL 3 ASNT/PCN · IWE · SIMPLE NDT · · 13 MIN DE LEITURA

Uma das conversões mais subestimadas em quem migra de fabricação ASME para o mercado europeu é a do programa de END. A tentação é pegar o procedimento de radiografia, ultrassom ou líquido penetrante que já roda sob a ASME Seção V, trocar a referência normativa para "EN ISO" e seguir em frente. Não funciona — e o Organismo Notificado ou o RTPO percebe na primeira revisão.

O motivo é que a Seção V e as normas EN ISO de END não são dois sotaques da mesma língua: são duas arquiteturas diferentes. Mudam a separação entre método e aceitação, a seleção do indicador de qualidade de imagem, a classe de ensaio, os tempos de interpretação e — talvez o mais importante para o laudo — de onde vem o critério de aceitação. Este artigo percorre essas diferenças método a método.

A diferença estrutural: método e aceitação são separados na ISO

No mundo ASME, a Seção V diz como fazer o ensaio, e o critério de aceitação fica no código de construção (Seção VIII Divisão 1 ou 2, B31.3, etc.). Um único código de construção referencia a Seção V e define o que é aceitável.

No mundo EN ISO, método e aceitação vivem em normas separadas: uma norma diz como ensaiar, outra define o nível de aceitação, e ambas se conectam ao nível de qualidade da solda pela ISO 5817 através da ISO 17635 (a norma "guarda-chuva" que orienta seleção de método, técnica e nível de aceitação). Essa separação é o que mais desorienta quem vem da ASME.

Ensaio Método ASME Método EN ISO Aceitação EN ISO
RT (radiografia) Seção V, Art. 2 EN ISO 17636-1 (filme) / -2 (digital) ISO 10675-1
UT (ultrassom) Seção V, Art. 4 EN ISO 17640 (UT), 13588 (PAUT), 10863 (TOFD) ISO 11666 (UT), 19285 (PAUT), 15626 (TOFD)
PT (líquido penetrante) Seção V, Art. 6 EN ISO 3452-1 ISO 23277
MT (partículas magnéticas) Seção V, Art. 7 EN ISO 17638 ISO 23278
Base de aceitação Embutida no código de construção ISO 5817 (nível de qualidade) via ISO 17635 → nível por método

RT — radiografia: o IQI é o detalhe que mais derruba procedimento

Na radiografia, a ASME Seção V Artigo 2 e a EN ISO 17636-1 chegam a resultados parecidos por caminhos diferentes. A ISO trabalha com duas classes de técnica: classe A (técnicas básicas) e classe B (técnicas melhoradas, de maior sensibilidade — na prática, o caso geral exigido pela maioria das especificações e aplicações de equipamentos de pressão). A ASME não usa essa nomenclatura — define requisitos de técnica (unsharpness geométrica, distância fonte-filme) sem o rótulo A/B.

O ponto que mais reprova procedimento convertido às pressas é a seleção do IQI (indicador de qualidade de imagem). Na ASME, a espessura para escolher o penetrômetro/IQI é a espessura nominal de parede simples acrescida do reforço de solda estimado quando presente. Na ISO 17636-1, o IQI é selecionado pela espessura nominal t ou pela espessura penetrada w da(s) parede(s), conforme a técnica — sem somar o reforço como base normal de seleção —, e na técnica de parede dupla com vista dupla (DWDI) usa-se w = 2t. Para a mesma junta, isso pode levar a fios ou furos de IQI diferentes.

Aspecto RT ASME V, Art. 2 EN ISO 17636-1
Indicador de qualidade Penetrômetro de furo ou de fio IQI de fio ou de furo-degrau
Espessura p/ seleção do IQI Parede simples nominal + reforço estimado t ou w da(s) parede(s); DWDI w = 2t
Classe / sensibilidade Requisitos de técnica (sem rótulo A/B) Classe A (básica) / B (melhorada) — B é o caso geral nas especificações
Densidade óptica mínima ≈ 1,8 a 4,0 Classe A ≥ 2,0 · Classe B ≥ 2,3
Sistema de filme Livre na prática — sensibilidade provada pelo IQI (filmes por ASTM E1815) Classe por ISO 11699-1 — classe B exige C4 ou melhor (≈ ASTM Classe I)

Nota prática: a classe B é o caso geral — é o que a maioria das especificações e aplicações de equipamentos de pressão exige, e o que a qualificação pela ISO 15614-1 normalmente pressupõe. Use a classe A apenas quando a norma de produto, o contrato ou a terceira parte explicitamente a admitirem.

Sistema de filme: onde a radiografia ASME reprova antes da primeira indicação

A ISO 11699-1 classifica os sistemas de filme em seis classes, de C1 (maior qualidade) a C6 — e a ISO 17636-1 vincula a classe de filme à classe de técnica: para a classe B, exige-se tipicamente sistema C4 ou melhor nas combinações usuais de fonte e espessura em aço. A ASME, por sua vez, não impõe classe de sistema: a escolha do filme é livre na prática, porque a sensibilidade é demonstrada pelo IQI em cada exposição — os filmes são classificados pela ASTM E1815, mas a Seção V não amarra classe de filme a técnica.

ISO 11699-1 ASTM E1815 Exemplo (Agfa)
C1 Special D2
C2 · C3 · C4 Classe I D3 · D4 · D5
C5 Classe II D7
C6 Classe III D8

A consequência prática: quem fabrica sob ASME costuma usar filme Classe II (C5 — ex.: D7) na rotina, reservando a Classe I para as espessuras menores. Quando radiografias batidas assim são oferecidas para um projeto ISO/PED com classe B, o sistema de filme já não atende — a radiografia reprova de cara, antes mesmo da avaliação de qualquer indicação. É um dos cheques mais rápidos, e mais ignorados, ao receber um pacote de radiografias "aproveitáveis".

O mesmo cordão, dois IQIs: PSVS de 13 mm

Para tornar concreta a diferença de base de seleção, considere uma junta de topo em aço, parede simples vista simples (PSVS), espessura nominal de 13 mm, com IQI no lado da fonte:

O fio exigido pela ISO tem menos da metade do diâmetro do exigido pela ASME — 0,20 mm contra 0,41 mm. Uma radiografia confortavelmente aprovada na ASME pode simplesmente não revelar o fio que a ISO classe B exige. Somado à classe de filme, é por isso que "aproveitar o filme do projeto ASME" raramente sobrevive à revisão da terceira parte.

UT — ultrassom: níveis de ensaio explícitos

No ultrassom, a EN ISO 17640 introduz algo que a ASME Seção V Artigo 4 não rotula da mesma forma: níveis de ensaio (A, B, C e D), em ordem crescente de rigor — quanto maior o nível, maior a cobertura, a sensibilidade e a documentação exigida. O nível de ensaio é escolhido em função do nível de qualidade pretendido. A aceitação vem da ISO 11666, e a correspondência é direta: nível de qualidade B da ISO 5817 → nível de aceitação 2 da ISO 11666.

Para técnicas avançadas, a separação continua: Phased Array tem método na ISO 13588 e aceitação na ISO 19285; TOFD tem método na ISO 10863 e aceitação na ISO 15626. Quem já trabalha com PAUT sob a ASME (ver o artigo de phased array em substituição à radiografia) reaproveita a técnica, mas precisa reancorar o plano de varredura e os critérios no referencial EN ISO.

PT e MT — superfície: tempos e critérios não são iguais

Nos ensaios de superfície, as diferenças aparecem nos tempos e, de novo, na aceitação. No líquido penetrante, a ASME Seção V Artigo 6 define o tempo de penetração pela Tabela T-672 (variável por material, forma e tipo de descontinuidade) e a interpretação entre 10 e 60 minutos após o revelador — passados 60 minutos, a interpretação perde validade. A EN ISO 3452-1 usa tempo de penetração normalmente entre 5 e 60 minutos (não inferior à recomendação do fabricante) e tempo de revelação tipicamente da ordem de 10 a 30 minutos. São janelas distintas, e o procedimento precisa declarar a referência correta — não misturar as duas escolas.

Nas partículas magnéticas, a Seção V Artigo 7 dá lugar à EN ISO 17638 para a técnica, com aceitação pela ISO 23278. Em ambos os métodos de superfície, a aceitação EN ISO conduz ao sufixo "X" para o nível de qualidade B, como veremos a seguir.

O critério de aceitação: a diferença que muda o laudo

Aqui está o coração da conversão. Na ASME, você compara a indicação com o critério do código de construção. Na EN ISO, você parte do nível de qualidade da ISO 5817 (B, C ou D) e o traduz, pela ISO 17635, no nível de aceitação de cada método. O mesmo nível de qualidade vira números diferentes conforme o ensaio — não existe um "nível de aceitação" único.

Nível de qualidade ISO 5817 RT (10675-1) UT (11666) MT (23278) PT (23277)
B (mais exigente) 1 2 2X 2X
C (intermediário) 2 3 3X 3X
D (moderado) 3 3 3 3

Correspondência conforme ISO 17635. O sufixo "X" (MT/PT) indica que toda indicação linear detectada é avaliada pelo nível 1, mais rígido. Para RT, a ISO 10675-1 (Tabelas 2 e 3) confirma B → nível 1; para UT, a ISO 11666 (Tabela 1) confirma B → nível 2.

A consequência prática é direta: em qualificação de procedimento pela ISO 15614-1, especialmente no Level 2, o caminho normalmente leva ao nível de qualidade B da ISO 5817, com as exceções da própria norma — logo, no laudo de END de um projeto PED/CE, você costuma trabalhar com RT nível 1, UT nível 2 e MT/PT nível 2X. Esse mapeamento precisa estar explícito no procedimento e no laudo.

Pessoal e aprovação: quem assina o laudo

Mudar a norma de método e de aceitação não basta se quem interpreta o ensaio não estiver qualificado pela régua certa. Na Europa, o caminho normal é a certificação pela EN ISO 9712 — certificação central, por organismo independente do empregador —, diferente da lógica SNT-TC-1A, baseada no empregador. Para interpretar, avaliar contra o critério e ser responsável pelo laudo, exige-se Nível 2 (ou 3); o Nível 1 pode executar tarefas sob instrução/supervisão, mas não é o responsável pela decisão aceita/rejeita.

E há a camada da terceira parte: para equipamentos de Categorias III e IV, a PED (Anexo I, Seção 3.1.3) exige que a qualificação do pessoal de END seja aprovada por um RTPO. A SNT-TC-1A, por si só, não atende; pessoal de outras normas pode ser aprovado por um RTPO se demonstrada equivalência aos critérios da ISO 9712, individualmente. O detalhe completo está no guia de PED, RTPO e marcação CE.

Na prática: convertendo um procedimento ASME V para EN ISO

Reunindo tudo, a conversão de um procedimento de END do mundo ASME para o EN ISO segue uma sequência clara:

É um trabalho de engenharia de procedimento, não de tradução. A SimpleNDT faz exatamente essa conversão: revisão e reescrita de procedimentos de END para o referencial EN ISO, remapeamento de critérios de aceitação e suporte à qualificação e aprovação de pessoal — com Nível 3 PCN (ISO 9712) aprovado no esquema RTPO da PED. Veja os serviços de procedimentos de END e de conformidade PED.

PERGUNTAS FREQUENTES
Posso usar meu procedimento de RT ASME Seção V em um projeto PED/CE? +
Não por simples tradução. Na marcação CE sob a PED, a radiografia segue a EN ISO 17636-1 (filme) ou 17636-2 (digital), e a aceitação vem da ISO 10675-1, não do código de construção ASME. Vários parâmetros mudam de fato: a seleção do IQI na ISO usa a espessura nominal ou penetrada da(s) parede(s), conforme a técnica, sem somar o reforço de solda como base normal (em DWDI, usa w = 2t), enquanto a ASME Seção V soma o reforço estimado quando presente; a ISO trabalha com classe de ensaio A (básica) ou B (melhorada); a densidade óptica mínima é ≥ 2,0 (classe A) e ≥ 2,3 (classe B); e o sistema de filme é classificado pela ISO 11699-1. Na prática, o procedimento precisa ser reescrito conforme a cadeia EN ISO — não basta trocar a capa e a referência normativa.
Na ISO 17636-1, a seleção do IQI considera o reforço da solda? +
Não como base normal de seleção. A ISO 17636-1 usa a espessura nominal t ou a espessura penetrada w da(s) parede(s), conforme a técnica radiográfica, sem somar o reforço de solda (sobremetal) como critério de escolha do IQI. Na técnica de parede dupla com vista dupla (DWDI), usa-se w = 2t, ou seja, o dobro da espessura de uma parede. Isso contrasta diretamente com a ASME Seção V, Artigo 2, em que a espessura para escolher o penetrômetro/IQI é a espessura nominal de parede simples acrescida do reforço de solda estimado quando presente. O resultado é que, para a mesma junta, ASME e ISO podem exigir IQIs diferentes. É exatamente o tipo de detalhe que precisa estar correto no procedimento antes da revisão do Organismo Notificado ou do RTPO — e que costuma passar despercebido em uma conversão apressada de ASME para EN ISO. Na dúvida, recalcule o IQI pelo t/w aplicável da parede antes de emitir o procedimento, não depois da reprovação.
Posso aproveitar radiografias batidas para ASME em um projeto ISO/PED? +
Quase nunca diretamente — e a reprovação costuma acontecer antes da avaliação de qualquer indicação. Primeiro, o sistema de filme: a ISO 17636-1 vincula a classe de técnica à classe de filme da ISO 11699-1, e para a classe B — o caso geral nas especificações europeias — exige-se tipicamente sistema C4 ou melhor, equivalente à Classe I da ASTM E1815. Quem fabrica sob ASME costuma usar filme Classe II (C5, como o Agfa D7) na rotina, reservando a Classe I para espessuras menores; esse filme não atende a classe B, e a radiografia reprova de cara. Segundo, o IQI: a ASME soma o reforço de solda à espessura de seleção, a ISO usa t ou w sem reforço, e a sensibilidade exigida é maior — em uma junta PSVS de 13 mm com IQI na fonte, a ASME (T-276) pede fio de 0,41 mm, enquanto a ISO classe B (Tabela B.3) pede o fio W13, de 0,20 mm — menos da metade do diâmetro. Para projetos ISO/PED, o caminho seguro é radiografar conforme a cadeia EN ISO desde o início.
Qual nível de aceitação de END equivale ao nível de qualidade B da ISO 5817? +
Depende do método, e essa é a parte que mais confunde. No mundo EN ISO, o nível de qualidade da solda é definido pela ISO 5817 e traduzido em nível de aceitação por método através da ISO 17635. Para o nível de qualidade B (o mais exigente, e o que projetos de qualificação ISO 15614-1 nível 2 normalmente usam, com as exceções da própria norma), a correspondência geral é: radiografia (ISO 10675-1) nível 1; ultrassom (ISO 11666) nível 2; partículas magnéticas (ISO 23278) e líquido penetrante (ISO 23277) nível 2X. Note que o mesmo nível de qualidade vira números diferentes em cada método — não existe um nível de aceitação único. O sufixo X nos ensaios de superfície significa que toda indicação linear detectada é avaliada pelo nível 1, mais rígido. Por isso o critério de aceitação precisa ser remapeado por método, não copiado — em um projeto sob ISO 15614-1, isso normalmente significa RT nível 1, UT nível 2 e MT/PT nível 2X.
Os tempos de líquido penetrante são iguais entre ASME e ISO? +
Não são idênticos, e a diferença aparece no laudo. Na ASME Seção V, Artigo 6, o tempo de penetração segue a Tabela T-672, que varia conforme material, forma do produto e tipo de descontinuidade, e a interpretação é feita entre 10 e 60 minutos após a aplicação do revelador — passados 60 minutos, a interpretação não é mais válida. Na EN ISO 3452-1, o tempo de penetração fica normalmente entre 5 e 60 minutos, não inferior à recomendação do fabricante, e o tempo de revelação é tipicamente da ordem de 10 a 30 minutos. São janelas e referências distintas — o procedimento de PT precisa declarar os tempos conforme a norma aplicável, e não misturar critérios das duas escolas.
O laudo de END muda quando passo de ASME para EN ISO? +
Sim, e em mais de um campo. A base de aceitação muda: na ASME, o critério está embutido no código de construção (Seção VIII Divisão 1 ou 2, B31.3 etc.); no mundo EN ISO, vem da ISO 5817 traduzida pela ISO 17635 para o nível de aceitação de cada método. Mudam também as normas de método citadas (EN ISO 17636, 17640, 3452-1, 17638), os parâmetros técnicos registrados (seleção de IQI, classe A/B, densidade, tempos de PT) e a qualificação do pessoal que interpreta e assina. Um laudo conforme EN ISO precisa referenciar a norma de método, a norma de aceitação e o nível aplicável — por exemplo, RT conforme ISO 17636-1, classe B, aceitação ISO 10675-1 nível 1. Não é um detalhe de formatação: é o que o Organismo Notificado ou o RTPO efetivamente verifica.
Quem pode interpretar e assinar o laudo de END em um projeto PED? +
Na Europa, o caminho normal é pessoal de END qualificado pela EN ISO 9712 — certificação central, por organismo independente do empregador — no método e setor industrial corretos. Para a interpretação, avaliação contra o critério de aceitação e emissão do laudo, o responsável deve ser Nível 2 (ou 3); o Nível 1 pode executar tarefas sob instrução/supervisão, mas não é o responsável pela avaliação aceita/rejeita. Para equipamentos de Categorias III e IV, a PED (Anexo I, Seção 3.1.3) exige que essa qualificação seja aprovada por um RTPO — organismo de terceira parte reconhecido conforme o Artigo 20 —, e a certificação SNT-TC-1A, por ser baseada no empregador, não satisfaz esse requisito sozinha. Pessoal certificado por outras normas pode ser aprovado por um RTPO, desde que demonstrada equivalência aos critérios da ISO 9712, de forma individual. Um certificado isolado, sem aprovação individual por RTPO, não cumpre o requisito da PED.

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