Requisitos, custos, qualificação de procedimento e o dilema do Nível 3 no Brasil.
POR DAN YAMASHITA · NÍVEL 3 ASNT/PCN · SIMPLE NDT · · 14 MIN DE LEITURA
O Ultrassom Phased Array (PAUT) é uma técnica avançada de ensaio não destrutivo que utiliza transdutores multielementos para gerar e direcionar feixes ultrassônicos eletronicamente. Diferente do ultrassom convencional — que usa um único cristal emitindo um feixe fixo — o PAUT controla individualmente dezenas de elementos piezelétricos, aplicando atrasos programáveis (time delays) que permitem focalizar, defletir e varrer o feixe em múltiplos ângulos simultaneamente.
O resultado prático: uma única varredura de PAUT produz imagens setoriais (S-scan) ou lineares (E-scan) em tempo real, cobrindo todo o volume da solda com resolução e rastreabilidade superiores ao ultrassom manual. Quando combinado com encoders e scanners mecanizados, o PAUT gera registros digitais completos — os chamados raw data — que podem ser reanalisados a qualquer momento.
A técnica é normatizada pelo ASME BPVC, Section V, Article 4, com apêndices mandatórios dedicados ao Phased Array. A possibilidade formal de substituir a radiografia pelo PAUT em vasos de pressão foi introduzida pelo histórico Code Case 2235 e hoje está incorporada diretamente na ASME BPVC Section VIII, Division 2, Parágrafo 7.5.5.
A escolha entre radiografia e Phased Array não é uma questão de superioridade absoluta. Cada técnica tem domínios onde é inerentemente superior.
A radiografia é mais confiável na detecção de defeitos volumétricos como porosidades agrupadas e inclusões de escória. O contraste de densidade que esses defeitos geram na imagem é inconfundível. O filme (ou imagem digital DR/CR) fornece um registro visual permanente, intuitivo e de fácil interpretação — inclusive para auditores que não dominam acústica. A RT também é menos sensível à rugosidade superficial e à geometria da peça.
Outro ponto raramente discutido: a curva de aprendizado do intérprete de RT é mais curta. Um Nível II competente em radiografia aprende a avaliar filmes em meses. A interpretação de dados volumétricos de PAUT (C-scan, S-scan, B-scan sobrepostos) exige maturidade técnica significativamente maior.
O PAUT é dramaticamente superior na detecção de defeitos planares — trincas, falta de fusão e falta de penetração. Esses são exatamente os defeitos que a mecânica da fratura classifica como críticos para a integridade estrutural. Uma trinca com abertura de décimos de milímetro pode ser completamente invisível à radiografia se o feixe de raios-X não incidir perfeitamente paralelo ao plano da falha. Para o PAUT, essa mesma trinca é um espelho acústico.
Adicionalmente, o PAUT oferece: resultados em tempo real, capacidade de dimensionamento (sizing) direto de defeitos, ausência de radiação ionizante e inspeção paralela à produção sem paralisação do chão de fábrica.
| Critério | Radiografia (RT) | Phased Array (PAUT) |
|---|---|---|
| Defeitos volumétricos (porosidade, escória) | Superior | Adequado |
| Defeitos planares (trinca, falta de fusão) | Limitada | Superior |
| Registro permanente e auditável | Filme/imagem digital | Raw data digital |
| Radiação ionizante | Sim (Ir-192, Se-75, Raio-X) | Não |
| Resultados em tempo real | Não | Sim |
| Dimensionamento de defeito (sizing) | Não direto | Sim |
| Impacto na produção (isolamento de área) | Alto | Nenhum |
| Sensibilidade à rugosidade/geometria | Baixa | Média a alta |
A análise de custos entre RT e PAUT se inverte dependendo de onde se olha.
O PAUT exige investimento inicial significativamente maior. Equipamentos com capacidade para substituição de RT conforme ASME (Olympus OmniScan, Eddyfi Gekko/Mantis ou equivalentes) custam tipicamente de US$ 50.000 a US$ 150.000. Um setup completo com scanner, encoder e software de análise pode facilmente superar US$ 200.000. Em comparação, uma fonte de Irídio-192 com colimador ou um gerador de Raio-X portátil exige tipicamente entre US$ 30.000 e US$ 80.000.
É aqui que a conta vira. O custo por metro de solda inspecionada com PAUT é drasticamente inferior: sem filmes, sem produtos químicos, sem reposição periódica de fontes radioativas (meia-vida do Ir-192: ~74 dias), sem dosimetria, sem monitoração ambiental e sem paralisação de fábrica para isolamento. Uma equipe de PAUT é tipicamente menor e opera continuamente.
Estimativas de chão de fábrica apontam que uma equipe de PAUT inspeciona o dobro de soldas por turno. A diferença vem do tempo morto da radiografia: montagem, isolamento de área, exposição, processamento e avaliação do filme.
Este é o ponto que separa a teoria da prática e onde muitos fabricantes se surpreendem.
A "qualificação" da radiografia é, na prática, contínua e autoverificável. O ASME BPVC Section V, Article 2 exige que cada exposição contenha um Indicador de Qualidade de Imagem (IQI). Se o filme revela o furo ou arame exigido com a densidade óptica correta, o procedimento demonstrou sua sensibilidade naquela exposição. Não há exigência de blocos com trincas artificiais. Não há Demonstração de Performance formal. Para uma fábrica em processo de certificação do selo ASME, a demonstração ao AI é relativamente simples.
Para substituir a radiografia, o ASME BPVC Section V, Article 4, Mandatory Appendix IX exige uma Demonstração de Performance formal. Na prática:
Além disso, o PAUT possui uma extensa lista de Variáveis Essenciais (Tabela T-421 do ASME V Art. 4). Qualquer mudança em configuração de junta, ângulos, leis focais, transdutor ou método de dimensionamento exige que todo o processo de demonstração seja refeito.
A radiografia é mais adequada para: processos de certificação ASME com produção variada e baixo volume, onde a demonstração ao AI precisa ser rápida; peças não seriadas com grande variedade de configurações de junta.
O Phased Array é mais adequado para: fabricação seriada com alto volume de soldas em configurações repetitivas; projetos sob ASME Section VIII, Division 2, onde a avaliação por mecânica da fratura exige dimensionamento preciso; ambientes onde a radiação ionizante é restritiva (plataformas offshore, plantas em operação, refinarias).
Para fabricantes que precisam de procedimentos de PAUT conforme ASME V, a SimpleNDT elabora documentação completa incluindo scan plan e qualificação de pessoal.
Este é um dos pontos mais críticos — e menos discutidos — da implementação do PAUT conforme ASME.
Conforme o ASME BPVC, o Nível 3 responsável pelo programa de PAUT acumula: desenvolvimento e aprovação do procedimento de exame e do Scan Plan (modelagem acústica e geométrica da cobertura do feixe sobre a junta); especificação dos blocos de calibração e demonstração; condução ou supervisão da Demonstração de Performance; e qualificação e certificação de pessoal Nível I e II em Phased Array.
O ASME BPVC Section V e a SNT-TC-1A exigem que o Nível 3 responsável pelo programa de PAUT demonstre competência específica no método. Ser Nível 3 apenas em UT convencional não é suficiente para aprovar scan plans, validar as Demonstrações de Performance e certificar Níveis II em Phased Array.
Aqui surge o dilema: para um profissional Nível 3 se submeter ao exame prático de Nível II em PAUT — necessário para demonstrar competência no método — ele precisa ser avaliado por outro Nível 3 que já cumpra os requisitos ASME para Phased Array. E onde está esse outro Nível 3? É, na essência, um dilema do ovo e da galinha.
A saída para esse impasse é buscar a qualificação diretamente nos centros de exame que detêm a infraestrutura e os profissionais já qualificados — o que, na prática, significa ir aos Estados Unidos para se submeter aos exames em condições que atendam integralmente aos requisitos ASME e ASNT.
Foi o caminho que a SimpleNDT adotou. Dan Yamashita realizou os exames de Phased Array nos EUA, obtendo dupla certificação Nível 3 — ASNT (SNT-TC-1A) e PCN (ISO 9712) — em UT convencional e Phased Array, em conformidade integral com os requisitos do código ASME.
O ponto relevante é estrutural: na cadeia employer-based da SNT-TC-1A, toda a legitimidade do programa de PAUT de uma empresa depende da qualificação do seu Nível 3. Se o Nível 3 não cumpre os requisitos, toda a cadeia abaixo — Níveis II e I — fica comprometida. É exatamente isso que auditores verificam durante a auditoria de selo ASME.
Procedimentos, scan plans, Demonstração de Performance e qualificação de pessoal. Nível 3 ASNT e PCN com exames realizados nos EUA.