Quem já trabalha sob ASME tem meio caminho andado para o mercado europeu — mas credenciais ASME não transferem sozinhas. Este guia compara, lado a lado, a qualificação de procedimentos, de soldadores e os ensaios de equipamentos nos dois mundos: ASME e PED/EN/ISO.
POR DAN YAMASHITA · NÍVEL 3 ASNT/PCN · IWE · SIMPLE NDT · · 12 MIN DE LEITURA
Um cenário recorrente nas fábricas brasileiras de caldeiraria e equipamentos sob pressão: a empresa tem selo ASME, WPS e PQR consolidados, soldadores qualificados pela Seção IX e um programa de END maduro — e então fecha um contrato para exportar à Europa. A pergunta inevitável aparece logo na primeira reunião com o cliente europeu: "isso tudo vale para marcação CE?". A resposta curta é: não automaticamente. E entender exatamente o que muda — e o que não muda — é a diferença entre um projeto que avança e um que trava na auditoria.
Este artigo é o mapa geral. Ele percorre os três pilares onde o mundo ASME e o mundo PED/EN/ISO divergem — qualificação de procedimento de soldagem (EPS/WPS), qualificação de soldador e ensaios não destrutivos dos equipamentos — e mostra o que costuma precisar ser refeito. Para cada pilar há um artigo dedicado, mais profundo; aqui o objetivo é dar a visão de conjunto e evitar as confusões mais comuns.
A marcação CE não é um selo de qualidade — é uma declaração legal de que o equipamento atende aos Requisitos Essenciais de Segurança da diretiva aplicável, no caso a Pressure Equipment Directive 2014/68/EU (PED). O mecanismo central da PED é a presunção de conformidade via normas harmonizadas: quando você usa as normas EN/ISO publicadas no Jornal Oficial da União Europeia, presume-se que atendeu aos requisitos cobertos por elas. Para soldagem e END, essas normas harmonizadas são da família EN ISO — não o ASME BPVC.
É por isso que uma qualificação ASME, por si só, não confere presunção de conformidade com a PED. Atenção à formulação correta: não se trata de "ASME não vale". A ASME é um código técnico robusto e mundialmente respeitado, e existem rotas que admitem materiais e soluções fora do conjunto harmonizado (por exemplo, a Aprovação Europeia de Materiais ou a avaliação particular de material). O ponto é que a ASME não é o caminho harmonizado automático para a marcação CE — e quase tudo na PED é construído em cima do referencial EN/ISO e da entrada de uma terceira parte no processo.
A maior diferença estrutural não está em uma norma específica, mas em quem valida o trabalho. No mundo ASME, a responsabilidade é do fabricante, acompanhado pelo Inspetor Autorizado (AI) ligado a uma Authorized Inspection Agency. No mundo PED, dependendo da categoria de risco do equipamento, entra formalmente uma terceira parte — o Organismo Notificado (NB) e/ou o RTPO (Recognised Third Party Organisation) — já na fase de qualificação, antes mesmo do produto existir.
O recorte por categoria, conforme o Anexo I da PED, é preciso e vale memorizar:
Ou seja: para soldagem, NB ou RTPO; para END (Cat III/IV), especificamente RTPO. Essa distinção é sutil e frequentemente confundida — inclusive em material técnico que circula no Brasil.
A tabela abaixo é o resumo que você pode colar na primeira página de um plano de adequação. Ela mapeia cada pilar do programa de qualidade entre os dois mundos e aponta o que costuma exigir retrabalho.
| Tema | Mundo ASME | Mundo PED / EN / ISO | O que costuma mudar |
|---|---|---|---|
| Qualificação de procedimento (EPS) | ASME BPVC Seção IX (WPS + PQR) | EN ISO 15614-1 (pWPS → WPQR) | Reavaliar variáveis, faixas e ensaios; aprovação NB/RTPO (Cat II+) |
| Qualificação de soldador | ASME BPVC Seção IX (WPQ) | EN ISO 9606-1 | Rever faixas e validade/continuidade; aprovação NB/RTPO (Cat II+) |
| END — métodos | ASME BPVC Seção V | EN ISO 17636 (RT), 17640 (UT), 17638 (MT), 3452 (PT) | Reescrever procedimentos conforme normas EN ISO |
| END — critério de aceitação | Embutido no código de construção (VIII, B31.x) | ISO 5817 → ISO 17635 → 10675-1 / 11666 / 23277 / 23278 | Remapear o critério por método |
| END — pessoal | SNT-TC-1A (responsabilidade do empregador) | EN ISO 9712 ou equivalente aprovado por RTPO (Cat III/IV) | Certificação não transfere sozinha; exige aprovação individual por RTPO |
| Terceira parte | Inspetor Autorizado (AI) + responsabilidade do fabricante | Organismo Notificado (NB) e/ou RTPO conforme a categoria | Envolver NB/RTPO já na qualificação, não só no produto |
No ASME, a lógica gira em torno da Seção IX: um WPS apoiado por um PQR, com variáveis essenciais, não essenciais e suplementares essenciais, e agrupamentos por número P (metal de base), número F e número A (metal de adição). No mundo europeu, o equivalente é a EN ISO 15614-1, em que uma pWPS é validada por um registro de qualificação (WPQR), e os metais de base são agrupados pelos grupos do ISO/TR 15608.
Três diferenças merecem atenção. Primeiro, a edição de 2017 da ISO 15614-1 introduziu dois níveis: o Level 2, padrão quando o contrato ou a norma de aplicação nada especifica, com maior extensão de ensaios e faixas de qualificação mais restritivas; e o Level 1, alinhado à abordagem da ASME Seção IX, com menos ensaios. Quem qualifica em Level 2 cobre também o Level 1, mas não o contrário. Segundo, a extensão de ensaios tende a ser maior na ISO: além de tração e dobramento, o Level 2 acrescenta macrografia e, conforme o caso, dureza (exigida com exceções) e impacto (que depende de espessura, material e dos requisitos de impacto da aplicação) — então evite a generalização de que "a ISO sempre exige dureza e impacto". Terceiro, a aprovação por terceira parte (NB ou RTPO) para Categorias II, III e IV faz parte do processo, diferentemente do modelo ASME.
Aqui vale a precisão — e ela vem da própria Comissão Europeia. O PED Guideline F-12 trata a ASME Seção IX nominalmente: reconhece que a Seção IX, por si só, não cobre suficientemente algumas propriedades exigidas para certas aplicações — cita o ensaio de impacto na zona termicamente afetada (ZTA) e o ensaio de dureza — e que ela não exige que os ensaios sejam realizados sob responsabilidade de uma terceira parte. A boa notícia é o mecanismo de equivalência: não é preciso repetir os ensaios que o seu PQR ASME já estabeleceu, desde que a evidência seja rastreável e aceita pela terceira parte; acrescentam-se à programação as propriedades que faltam, frequentemente impacto na ZTA, dureza e/ou macrografia, conforme material, espessura e aplicação. Seu acervo ASME é aproveitado, não descartado — mas precisa ser complementado e formalmente aprovado.
O cuidado prático é chamar o NB/RTPO cedo. "Sob responsabilidade da terceira parte" não significa necessariamente que o auditor do NB ou RTPO precise executar todos os ensaios com as próprias mãos; tarefas práticas podem ser feitas por laboratório ou pessoal competente, desde que o programa seja aceito e a terceira parte assuma a aprovação. Mas se o cupom ASME já foi cortado para ensaios destrutivos e não existe registro verificável de um END exigido pela EN ISO 15614-1, a terceira parte pode não ter como aceitar a equivalência. Nesse caso, a solução deixa de ser uma simples complementação documental e pode virar um novo cupom de qualificação soldado sob programa aceito pela terceira parte. Não é refazer por princípio; é provar equivalência. Quando a evidência não existe, refazer pode ser a única saída defensável.
A qualificação de desempenho do soldador também tem normas distintas: ASME Seção IX (WPQ) de um lado, EN ISO 9606-1 do outro. As variáveis qualificadas se parecem — espessura, diâmetro, posição, processo, grupos de material e consumível —, mas duas diferenças têm impacto prático grande.
A primeira é a validade. No ASME, a qualificação permanece válida enquanto houver continuidade no processo, com registro a cada seis meses. Na ISO 9606-1, o certificado tem prazo de validade e depende de confirmação periódica (assinatura de supervisão a cada seis meses) — e o modo de prolongamento varia conforme as condições do sistema da qualidade do fabricante. A segunda é, novamente, a terceira parte: para Categorias II, III e IV, a qualificação do soldador precisa ser aprovada por NB ou RTPO. Na prática, o problema costuma estar menos em propriedades como dureza ou impacto — que pertencem ao WPQR — e mais no enquadramento da qualificação do soldador: faixas, validade, confirmação periódica, formato do certificado e aprovação no referencial ISO. Muitas qualificações ASME IX acabam precisando ser emitidas ou reaprovadas conforme EN ISO 9606-1 para cobrir a produção real e entrar no dossiê técnico sem ressalvas.
Aqui há três camadas que mudam ao mesmo tempo: o pessoal, os métodos e os critérios de aceitação.
No pessoal, o contraste é o que já tratamos no guia da SNT-TC-1A: o modelo ASNT é baseado no empregador, enquanto a Europa trabalha normalmente com certificação central e independente pela EN ISO 9712, ou qualificação equivalente avaliada e aprovada individualmente por RTPO para Categorias III e IV. Nos métodos, a Seção V dá lugar às normas EN ISO específicas — EN ISO 17636 para radiografia, 17640 para ultrassom, 17638 para partículas magnéticas, 3452 para líquidos penetrantes —, o que normalmente obriga a reescrever os procedimentos de END.
Os critérios de aceitação seguem uma lógica diferente. No ASME, o critério está embutido no código de construção. No mundo EN/ISO, o nível de qualidade é definido pela ISO 5817 e traduzido em nível de aceitação por método via ISO 17635. Por exemplo, em base geral, o nível de qualidade B da ISO 5817 corresponde a: RT (ISO 10675-1) nível 1, UT (ISO 11666) nível 2 e MT/PT (ISO 23278/23277) nível 2X — sempre confirmando a norma de produto, contrato e ITP aplicáveis. Note que o mesmo nível de qualidade vira números diferentes em cada método — é por isso que não existe um "nível de aceitação" único.
Até detalhes finos divergem, e eles aparecem em auditoria. Um exemplo concreto: na seleção do IQI radiográfico, a ASME Seção V baseia a escolha na espessura nominal de parede simples acrescida do reforço de solda estimado quando presente; já a ISO 17636-1 usa a espessura t ou w da(s) parede(s), conforme a técnica, sem somar o reforço como base normal, e na técnica de parede dupla/vista dupla (DWDI) adota w = 2t. São abordagens que levam a IQIs diferentes para a mesma junta — o tipo de divergência que precisa estar correto no procedimento, não descoberto na revisão do Notified Body. Esse é o tema do aprofundamento dedicado de END: ASME V vs EN ISO em END — o que muda no procedimento, no laudo e na aprovação PED.
Boa parte das confusões em projetos de adequação vem de uma só palavra: "nível". Há três escalas diferentes em jogo, e elas não têm relação direta entre si:
Sempre que escrever "nível X" em um documento, deixe explícito de qual escala se trata. Em um WPQR, "nível 2" é a qualificação do procedimento; em um laudo de END, "nível 2" pode ser o critério de aceitação ou a qualificação do inspetor — contextos diferentes, normas diferentes.
Para o fabricante que já opera sob ASME e quer acessar o mercado europeu, o caminho prático costuma seguir esta ordem:
O ponto encorajador: a disciplina de quem já vive sob ASME — rastreabilidade de materiais, controle documental, cultura de procedimentos — é exatamente o que torna a transição mais rápida. O que muda é o referencial normativo e a entrada formal da terceira parte. A SimpleNDT atua nessa ponte principalmente no que envolve END: procedimentos, critérios de aceitação, qualificação de pessoal, evidências para NB/RTPO e interface técnica entre ASME e EN ISO quando a soldagem precisa ser comparada ao referencial europeu. Dan Yamashita é Nível 3 PCN (ISO 9712) com aprovação reconhecida no esquema RTPO da PED, e atua nos dois mundos. Veja os serviços de conformidade PED e de auditorias ASME.
Procedimentos de END, critérios de aceitação, qualificação de pessoal e interface com NB/RTPO para projetos PED/CE — com suporte técnico em soldagem quando o caminho ASME IX precisa ser comparado ao referencial EN ISO.